Como és, onde está o Salvador? Milhões clamam, meia dúzia grita. Inibido por deformações de um púlpito, embaçado pela fumaça de uma mesquinha religiosidade. Quem é esse ao qual canta minh'alma? Quem é Jesus, eu preciso saber. Cale-se igreja, permita que as pedras falem por nós, pois não mais conhecemos nosso Redentor. Que urrem as rochas trazendo de volta a imagem do Cristo cordeiro. Clamemos, vivamos, preguemos a cruz. Cruz onde sangue e dor se derramaram, para que nos prostremos frente a graça de um amor incondicional. Que junto aos joelhos ao chão caiam também os dedos apontados. Aquele que não ama não conhece a Deus, porque Deus é amor. Que os ditos crentes descubram o dom de amar, que enfim se convertam. Mas que amem tal como o grande Pastor, que veio para os doentes e não para os sãos, e assim amou a todos. Entendamos que não é preciso inventar um novo cristo, mas sim e por favor um novo Martinho.
E se eu não quiser ser, e se o se se tornar é e o é deixar de ser? Possuo anseios que neste mundo não acho respostas, não sou daqui - não posso me contentar a ser isso aqui. E nem quero. É ser
fiél aos fatos, votar consciente, ter dinheiro, ser dinheiro, dinheiro
consciente, de fatos conscientes, é ser fiél. a quê? Mas a questão é que o tempo vai passando e conclusão sequer me direciona, ou coragem alguma me pousa para abandonar. Só sei que questiono e quanto mais contestável é menos quero. Estou perdido ou apenas ainda não me encontrei, no caminho reto ou andando em círculos. De fato, neste instante gostaria de ser nada, para atravessar a porta e saudar a criação - trilhar o caminho somente com a roupa do corpo, deixando mala, medo, obrigações. Não ser um molde, não ser aventureiro, estar.

Eu só queria que isso tudo passasse, que as pessoas se amassem; ver meu filho crescer. Um alívio se fosse embora essa tristeza, esse egoísmo que constrói a dor. Te queria aqui do meu lado, mas já me contento em estancar o fluxo desse coração que você arrancou. Porque faz parte do humano ser pobre e podre, individual, indiferente - isso que machuca a gente, faz questionar o amor e se isso tudo é nosso luar certo. Luar que muda de fase em fase e se altera num instante indo embora como se não precisasse dar satisfações. Ninguém é dono de ninguém, o desapego é meu e isso não vão me tirar. Mas não me digam que não é preciso ter cuidado. Não tentem me convencer o contrário de sua covardia - seu lugar de fuga em meio aos seus interesses. Em um pedaço de mundo onde encontro anseios que essa vida não pode satisfazer, só concluo que não fui feito para esse lugar. Existe uma alma que se move em mim, um pranto de retirada. E assim como os anciões, bato o pó de minhas sandálias frente a ti, como sinal do meu desprezo. Boa noite, viaje bem, meu maior consolo é saber que jamais encontrará o que tanto procura, em sua limitada busca terrena. Eu fico por aqui, meu tempo é apenas um fôlego e eu o respirarei. As lágrimas podem durar uma noite, mas a alegria resplandecerá, junto aos raios da alvorada.
Eu só sei que fico miúdo, do meu jeito quieto, pensando no estar. As palavras ditas ainda zonzam, os olhos marejam e o miocárdio se contrai. Eu fico pequeno, me perco e desabo. Não nasci para o desapego, prefiro a rotina do cuidado, dos carinhos e da permanência. Porque se fica é porque se tem amor, e isso basta. E me basta porque escolhi ser coração e não carne. Coração é trilhar por um caminho instável, é ser dependente do outro e assumir o plural. Somente aqueles que vivem pelo coração sabem de sua dor, mas conhecem o significado dos sentimentos não perecíveis. E assim a carne é, perecível - e eu me recuso. Me recuso a prostituir o que tenho como amor, por míseros instantes de instinto. Porque o físico se degrada, e vai-se embora deixando o vazio. E não quero ser vazio. Anseio ser inteiro, quero crescer, transbordar. Por isso não me vendo, mas amo. Não me corrompo, insisto. Faz parte da minha natureza não querer ser só - ser só prazer, só egoísmo, só instinto, só carne.
Li uma vez, nas paredes perdidas da vida, que todos somos egoístas até que achemos alguém com quem valha a pena pensar no plural. Porém, mais difícil que flexionar o contexto ao coletivo, é readaptar-se à rotina do singular. Fazer a partilha, redefinir os limites, acostumar-se com o silêncio e a mão desatada, que não mais entrelaça os dedos. E talvez por isso tamanho egoísmo. Egoísmo que se isola, no intuito de evitar o desgaste de um coração que batia na sincronia de dois, e que agora sofre a fadiga de reaprender a frequência da solidão.

Eu te amo, flagelando meu próprio eu, eu te amo. Mesmo negando que você não é insubstituível e que todos aqueles momentos nem foram assim tão especiais. Mesmo deixando você ir, enquanto choro pela saudade que ainda nem começou, mas que já tenho medo de sentir. Mesmo não te pedindo pra ficar, ainda que minha vontade real é te segurar pelos braços e não te deixar ir embora. Mesmo não olhando mais nos teus olhos, pois quero esconder que no fundo tenho lágrimas de tristeza e não ódio pelos teus atos. Mesmo não ouvindo a tua voz, que costumava me arrancar horas de boas conversas. Mesmo não fazendo mais parte dos teus dias, após acreditar que iríamos dividir uma vida inteira. Mesmo estando longe, eu te amo. E amo mesmo. Amo por inteiro, amo com força, amo mesmo não sabendo amar. Porque confesso que já não sei mais como fazer, e qual seria a razão disso. Mesmo negando, mesmo deixando, mesmo não pedindo, nem olhando nos teus olhos ou ouvindo a tua voz, eu amo. E amo mesmo, mesmo no fim, que enfim possuo a certeza que já não quero mais te amar, mesmo te amando.
"Eu te amo. Mesmo negando. Mesmo deixando você ir. Mesmo não te pedindo pra ficar. Mesmo não olhando mais nos teus olhos. Mesmo não ouvindo a tua voz. Mesmo não fazendo mais parte dos teus dias. Mesmo estando longe, eu te amo. E amo mesmo. Mesmo não sabendo amar." - CaioF.
Porque quando se ama a gente escorrega, tropeça e mesmo sem querer parece assim, um tanto malcuidado, estragado. Porque quando se ama não da pra explicar, passa o dia todo querendo encontrar, porque para quem ama não há substituição, e se adoece, amolece querendo ver. Aquela música que fala do amor, aquele som daquele coração que jura todos os dias que poda mudar, que vai se ajeitar, endireitar "por você".